Portal Vermelho

Arte Clarissa Reche

Portal Vermelho: uma etnografia sobre corpo, gênero, sangue, emoções e experiência

No final de 2014, Janaina Morais inicia suas investigações sobre o ciclo e o sangue menstrual, quando passa a questionar um diagnóstico de Síndrome dos Ovários Policísticos que havia sido feito aos 16 anos de idade. Depois de 10 anos tomando pílula contraceptiva para o controle da S.O.P., ela interrompe o uso do medicamento e passa a buscar outras alternativas para o tratamento.
A partir disso, começa a ter contato com uma rede transnacional de mulheres e corpos menstruantes que buscavam conhecer seus corpos, questionar a medicalização da menstruação e se apropriar do saber médico científico, bem como do conhecimento sobre a cura através das plantas. Teve contato com mulheres que estavam praticando os Sagrados Saberes Femininos, mulheres que estavam fazendo arte com o próprio sangue menstrual e mulheres que estavam praticando uma ginecologia política, autônoma e natural.
A partir desse contato inicial, a pesquisadora participou de vários cursos e formações na área, especializando-se em Ginecologia Autônoma, Política e Natural e na Terapia Menstrual e também passou a criar artisticamente com o próprio sangue menstrual, iniciando um movimento de ressignificação da menstruação.
Em 2016 ela desenvolve o projeto Meu Corpo, Meu Sangue que a instigou a ir mais fundo nas pesquisas sobre o tema e, percebendo a relevância de aliar esses saberes experienciais aos teóricos, Janaina Morais decide desenvolver o projeto de doutorado, cujo fruto é a tese Portal Vermelho, reunindo sete anos de estudo e experiência com o sangue menstrual.

Essa pesquisa foi financiada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Resumo: A menstruação, em uma perspectiva transcultural se apresenta como objeto de significados e interpretações múltiplas, dando origem aos mais diferentes costumes e crenças. Entretanto, a concepção negativa, em relação ao sangue menstrual, oriunda do tabu que envolve a menstruação, foi a visão mais difundida. Como formas de se relacionar com este tabu, vemos emergir, na sociedade ocidental contemporânea, um processo de medicalização do corpo feminino, mais especificamente da menstruação, como também diversos outros processos de resistência a essa medicalização e ressignificação da concepção negativa que permeia o sangue menstrual, tais como a prática da Ginecologia Autônoma, Política e Natural, as terapias e a arte menstrual, dentre vários outros movimentos. O foco desta pesquisa é refletir sobre essas diferentes perspectivas que afloram, atualmente, em relação à menstruação, procurando compreender de que forma o tabu da menstruação é forjado, como a medicalização da menstruação acontece e de que maneira tem influenciado as narrativas e práticas das mulheres e outros corpos menstruantes. Importa, também, analisar os processos de resistência à medicalização e ressignificação da menstruação e do sangue menstrual, a partir da minha própria experiência, como antropóloga, terapeuta menstrual e artista, somada à experiência de outras mulheres e corpos menstruantes que cruzaram meu caminho, durante cursos, vivências, oficinas, encontros, rodas de conversas e pelas redes sociais. Como marco teórico-metodológico, este trabalho busca resgatar o rol da corporalidade e a autoetnografia, procurando explorar os diversos sentidos dentro do trabalho de campo, bem como uma escrita orientada pela subjetividade, por um saber localizado, encarnado, corporificado, de uma pesquisadora que se emociona, envolve e deixa-se afetar pelo campo.

Links para publicações:

GÊNERO, CORPO E SANGUE: UMA ETNOGRAFIA SOBRE A MEDICALIZAÇÃO DA MENSTRUAÇÃO (Capítulo do Livro Saúde e Corpo – Editora UFJF, 2021)

O tabu do sangue menstrual: reflexões sobre as diferentes perspectivas que envolvem a menstruação (Reunião de Antropologia do Mercosul, Porto Alegre, 2019)

POLÍTICA E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE SOBRE A MEDICALIZAÇÃO DA MENSTRUAÇÃO E AS EXPRESSÕES DE RESISTÊNCIA E RE-EXISTÊNCIA (Revista CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, 2017)

GÊNERO, CORPO E SANGUE: UMA ETNOGRAFIA SOBRE A MEDICALIZAÇÃO DA MENSTRUAÇÃO (13º Mundo de Mulheres e Fazendo Gênero 11, Florianópolis, 2017)