
O projeto “Meu Corpo, Meu Sangue – Ressignificando a Menstruação”, financiado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora, Lei Murilo Mendes (2016), buscou estimular mulheres e corpos menstruantes a conhecerem seus corpos, seus ciclos e sua sexualidade, por meio da arte menstrual. O projeto, desenvolvido por Janaina Morais, envolveu a realização de uma exposição fotográfica interativa, com imagens criadas à partir da interação com seu sangue menstrual, o desenvolvimento de duas plataformas (blog e página no facebook) para o compartilhamento de informações sobre o tema e, como contrapartida social do projeto, também foi desenvolvida uma oficina de Ginecologia Autônoma.
Três séries fotográficas foram criadas, com seis imagens cada, a partir da interação do sangue com os elementos: água, porcelana e leite. A exposição também contou com um espaço interativo para o público deixar suas impressões sobre a menstruação, orientados à partir de três perguntas: O que você sabe sobre menstruação? O que você faz menstruadx? O que você sente quando olha para o sangue menstrual? E na abertura da exposição a artista realizou a performance “Fluxo”.
A exposição de arte menstrual foi a primeira a ser realizada no Brasil, com financiamento público, dentro do campo das artes visuais e algumas de suas fotos foram premiadas, com o segundo lugar, no 13º Mundo de Mulheres & Fazendo Gênero 11, que aconteceu em Florianópolis, em 2017.
Confira o blog do projeto e a página no facebook.
Lembrando que todas as postagens do blog estão agora vinculadas ao site e podem ser acessadas também em home.
Confira também as matérias que saíram na imprensa sobre o projeto:
Ciclos Artísticos (Jornal Tribuna de Minas).
Lei Murilo Mendes: Projeto busca romper tabus em relação ao ciclo menstrual (Portal da Prefeitura de Juiz de Fora)



Texto Curatorial
Vivemos em um paradigma que preconiza a origem das desigualdades como ontológica.
Este modus operandi justifica desigualdade com biologia e instaura a noção de “sexo” como a única forma de existir em sociedade.
Ao nos obrigar a olhar para e lidar com a menstruação, Meu corpo, Meu sangue refuta opressão com beleza, doença com saúde, vergonha com poder, nojo com prazer.
O poder emancipatório que existe no autoconhecimento é da mesma natureza do poder transformador que existe na arte.
A arte nos toca. Nós temos que nos tocar. E, com um toque, tudo muda.
A arte nos choca. Nós temos que encarar, temos que nos olhar de novo.
E, com um novo olhar, tudo muda.
Exibindo aquilo que “deveríamos” jogar fora,
a exposição dá descarga na normatização e sanitização dos corpos.
Não dá mais para viver assim.
Corpos menstruantes são corpos transformadores.
Mentes que sagram são mentes que transbordam.
Neste sentido, Meu corpo, Meu sangue é mais que uma exposição fotográfica. É uma obra completa que vai do criar ao protestar, do fotografar ao denunciar, do conhecer ao transformar, do perguntar ao compartilhar, do acolher ao empoderar, do feminino ao feminismo. É fotografia, escrita, performance, pintura, laboratório, pesquisa, antropologia, grupo de discussão, oficina, debate.
Objetos cotidianos são usados como instrumentos para a realização do fazer artístico e do questionamento do gesto social: coletar o sangue e não o descartar.
O que fazer com ele? O que ele faz (ou pode fazer) comigo/por mim?
A produção artística de Janaína Morais é, portanto, cerimônia, ritual, processo, imersão, enfrentamento.
Um bidê (louça), um prato com leite, um copo com água, um vaso sanitário, um coletor menstrual. Estes são os elementos narrativos da expografia de Meu corpo, Meu sangue. São coisas que a artista transforma em receptáculos de (1) questionamento, (2) autoconhecimento, (3) empoderamento. Sim, nesta ordem. Porque uma coisa leva à outra initerruptamente.
Como um percurso fluido, impossível de ser contido, a exposição nos conduz por um circuito reflexivo e nos faz desviar do destino-descarte.
Lá no começo, quando pedi a Janaína que me explicasse o porquê disso tudo, ela respondeu: “é algo que precisa sair de mim”.
Ludimilla Fonseca




Depoimentos Exposição
“Parabéns Janaina. Sua arte não é apenas bela, mas diz o que as pessoas não querem entender. Infelizmente não querem ultrapassar a fronteira do “nojo de si” que atrapalha tanto a felicidade. Meus parabéns. Fico admirado com a sua coragem.”
A.J. 2016
“Independente da questão “é arte ou não”, “se é bonito ou feio”, “últil ou inútil” dá pra notar que a menstruação é uma coisa considerada muito nojenta da nossa espécie e em alguns países as mulheres que saem de casa menstruadas podem ser apedrejadas caso descobertas, li relatos reunidos sobre a vida das sauditas esse mês (sangue as vezes vaza). Aqui não chegamos a tanto, mas que menina não foi ridicularizada na adolescência ou não deixou de fazer educação física por estar usando absorvente? É porque a menstruação é uma “vergonha”é “nojo”. Mas na verdade é só um óvulo infecundo, aquele mesmo que gera vida que muitos passam a defender quando vira feto. É o mesmo pedaço do corpo. Que pedaço de corpo não fede quando expelido? É material orgânicos em decomposição, como carne, legumes, pão – tudo apodrece e dá mau cheiro. Para além da beleza do trabalho da artista pensem o quanto nos mesmas nos achamos nojenta por causa de um pedaço do nosso corpo que se solta dentro de nós todos os meses! Não fomos feitas por Deus? Foi ele que criou essa engrenagem… Antigamente diziam que não podíamos lavar o cabelo! E se o trabalho é feio pensem que ao menos nos coloca diante de tantas críticas à menstruação. Por que uma coisa que é natural do nosso corpo é vista como sujeira? Não somos sujas, menstruação não é sujeira. Não sai sujeira do corpo da mulher. É da cabeça dos homens que sai sujeira. Do nosso corpo sai um óvulo todos os meses”.
W.L. 2016
Performance de abertura “Fluxo”




Oficina de Ginecologia Autônoma


A primeira oficina de Ginecologia Autônoma aconteceu como contrapartida social do projeto, em outubro de 2016. Contudo, a artista, antropóloga e terapeuta menstrual, Janaina Morais deu continuidade a esse movimento mesmo depois de finalizado o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, de forma presencial, durante quatro anos, até 2019 (antes da pandemia). Para outras informações, acesse o link sobre as oficinas.
Ficha técnica
Exposição: Meu corpo, meu sangue
Individual da artista Janaina Morais
Curadoria: Ludimilla Fonseca
Concepção Visual: Pedro Brum
Produção: Will Assis e Daniela Pedrosa
Centro Cultural Bernardo Mascarenhas
(CCBM Juiz de Fora - MG, Brasil)
06.10.2016 - 30.10.16
Crédito das imagens da exposição: Paula Duarte
