Espaço para uma “resistência amorosa”…

Em 2016, Janaina Morais realizou sua primeira oficina de Ginecologia Autônoma, como contrapartida social do projeto “Meu Corpo, Meu Sangue“. A partir dessa primeira oficina, a terapeuta e antropóloga desenvolveu outros formatos: de curta duração, intensivas e regulares. Foram quatro anos realizando oficinas presenciais (a última realizada em 2019, antes da pandemia), envolvendo mais de 300 mulheres e outros corpos menstruantes.
As oficinas foram conduzidas buscando criar um espaço de confiança, que estimulasse a troca de informações, saberes e histórias sobre ciclo menstrual, sangue, sexualidade, masturbação, ejaculação, formas de contracepção, anatomia e auto-exploração, enfermidades comuns (cólica, candidíase, infecção urinária, ovários policísticos, miomas, endometriose, etc.) e tratamentos naturais (uso de ervas, chás, banhos, vaporização uterina), entre outros temas relacionados.
Além disso, todo o conteúdo foi desenvolvido para que houvesse uma parte teórica e reflexiva e uma parte prática que envolvesse o corpo e as emoções, seja por meio de meditação conduzida, rituais, práticas de expressão artísticas e consciência corporal (individuais e ou coletivas), dentre outros tipos de exercícios que estimulassem um contato consigo, com o outro e o entorno.
Link para matéria do jornal Tribuna de Minas sobre o tema: Fatores emocionais podem contribuir para o surgimento do câncer

Nosso corpo, nosso laboratório
A ginecologia autônoma é uma prática que surge a partir do movimento self-help (auto-ajuda) iniciado na década de 1960, que instigava as mulheres a conhecerem seu próprio corpo e sexualidade, usando o exercício do autoconhecimento como forma de libertação (Material oficina Vulva Sapiens).
Uma metodologia muito utilizada por este movimento era a dos grupos de consciência e reflexão feministas, em que várias mulheres se reuniam nas casas umas das outras, ou em locais públicos para expressarem e reconhecerem suas próprias experiências, além de discutirem temas diversos relacionados ao contexto do momento.
Nestes encontros, as mulheres compartilhavam histórias pessoais, observavam o próprio corpo e o corpo das companheiras e questionavam o saber médico e científico, percebendo as relações de poder que envolviam a produção desse saber e reivindicando o lugar legítimo que ocupavam, antes da institucionalização da medicina, como detentoras de um conhecimento sobre seu próprio corpo.
A partir da difusão do conhecimento, a Ginecologia Autônoma, Política e Natural busca incentivar mulheres e outros corpos menstruantes a conhecerem seus corpos (tocá-los, senti-los, examiná-los), para poderem cuidar de sua própria saúde, sem, necessariamente, romper completamente com a ginecologia alopática convencional, mas estabelecendo uma visão crítica em relação à produção desse conhecimento, buscando utilizá-la em seu benefício, ao trabalhar o conceito de Body Literacy (Alfabetização do Corpo).
Fonte: Portal Vermelho: uma etnografia sobre corpo, gênero, sangue, emoções e experiência. (Tese de doutorado de Janaina Morais).
Ginecologia Autônoma, Política e Natural?
“Quando falamos de autonomia dentro da Ginecologia estamos falando sobre processos de aprendizagem, a como o conhecimento é passado e trocado entre nós – eu tenho autonomia para falar, apropriar e compartilhar técnicas de autocuidado. Quando falamos de política estamos falando sobre uma filosofia de vida e um posicionamento crítico diante à forma de produção do conhecimento científico sobre o corpo feminino e menstruante. E quando falamos do natural dentro da Ginecologia, estamos falando sobre métodos de cuidado e tratamento para as questões fisiológicas e emocionais”. (Doutora Janaina Morais)






Depoimentos
“A oficina me trouxe de volta. Trouxe a mulher de volta. A oficina resgatou! Ansiosa para fazer o modulo 2. Num é só corpo, é magico, é bruxaria, é uma energia o que as mulheres conseguem mover juntas. E mais do que o conteúdo, que já é maravilhoso, é você estar ali em grupo com todas aquelas mulheres…todos esses espelhos. Quando você começa a entender… me lembro da gente falando sobre cuidado… o que cada uma entende sobre cuidado, a gente percebe como a gente foi castrada e quantas dores a gente viveu e que todas as mulheres viveram… e que tá todo mundo no mesmo barco. A oficina é resistência amorosa! É! Se há uma palavra que define é resistência amorosa! Você consegue mana!”
Bianca, 2018
Uma dá força pra outra, e ao mesmo tempo quando você passa a força pra outra, você recebe. Você vê que é tudo a mesma força. Que a força que você tá recebendo é a sua força que você emanou a pouco tempo. Então assim, é tudo um conjunto, uma ligação muito grande, muito forte e tem esse pacto de inteiração, de irmandade, de, cara, é isso mesmo, a gente passa pelas mesmas coisas. A gente sofre as mesmas coisas, a gente não tem a nossa voz escutada nos outros lugares, então, aqui escuta, aqui a gente se escuta.
Carol, 2018
“Esses espaços são muito respeitosos e acolhedores, então, nas minhas experiências, por exemplo, eu falei coisas que eu não falava, assim, acho que hoje em dia eu naturalizei, mas não era o que eu falava. Eu não me sentia à vontade para falar sobre, pra trazer, então eu acredito na cura pela fala e não é à toa que eu escolhi esta profissão de psicóloga, porque é quando a gente coloca pra fora que a gente vai podendo reconstruir a nossa história, a gente vai conseguindo ressignificar algo que é do âmbito social né? (…) Então, se eu tô ali, digo, na minha dor e percebo que outra mulher tem a mesma dor ou uma dor parecida eu valido a minha dor, reconheço a minha dor e posso curar a minha dor, porque sozinha, neste espaço, é como se eu menosprezasse ela. Ai, eu não falo com ninguém porque eu tenho que dar contar né? E mulher tem que dar conta de tudo. Então, é um espaço de fortalecimento e validação e de conhecimento mesmo né?”.
Priscila, 2019
