A revolução começa pelo nosso próprio corpo

IMG_1348

O que fazer quando você vai a diferentes ginecologistas há 15 anos e se sente mal todas as vezes que sai do consultório? E quando você começa a questionar a autoridade médica e o saber científico? Será que o problema está comigo ou há algo de errado no lindo reino da medicina da mulher?

Depois de rejeitar as recomendações médicas e parar de tomar a pílula você se sente um pouco desamparada. O que eu faço agora? Será que eu estou tomando a decisão certa? É um caminho, a princípio, solitário e para ganhar forças neste processo eu tive que realizar muitas pesquisas, procurar alternativas e buscar entender o que estava acontecendo comigo, já que os médicos não sabiam me responder. Por que eu fui diagnosticada com ovários policísticos? Qual é a causa dessa síndrome? – Não sabemos dizer ao certo. É um problema biológico do seu ovário! – Mas ninguém está pesquisando isso? – Sim, está. Mas ainda é inconclusivo. Sinto muito, mas eu não consigo aceitar uma resposta vaga dessas. Senti que eu precisava ir a fundo neste problema e realizar minhas próprias investigações.

Uma das perguntas que eu me fazia era: será que os ovários policísticos são um problema contemporâneo? Como as mulheres antigamente viviam seus ciclos e lidavam com problemas relacionados a eles? Essas dúvidas me levaram a descobrir círculos de mulheres que estavam perpetuando o que elas reconhecem como os Sagrados Saberes Femininos.  Através de um resgate dos conhecimentos ancestrais milenares das tradições matrifocais e dos cultos geocêntricos, elas procuram empoderar mulheres, estimulando-as a buscarem autoconhecimento e a despertarem essa sabedoria intrínseca sobre si mesma.

Esses saberes femininos me chamaram muito a atenção me levando a pesquisas mais históricas e antropológicas sobre as práticas femininas de cuidado com o corpo e o momento da institucionalização da medicina com foco no corpo feminino. O fato é que, historicamente as mulheres detinham total conhecimento sobre o funcionamento de seus corpos. As parteiras, curandeiras, herboristas eram as especialistas neste assunto. Até que, com a institucionalização da medicina, o Estado e a Igreja queriam o monopólio deste conhecimento, dando início à famosa caça às bruxas. Assim, toda uma tradição de mulheres sábias é esmagada por esse poder que visa o controle e a disciplina dos corpos femininos.

Ainda que a medicina tenha trazido muitos avanços em várias questões, não dá para negar que sua busca pela verdade científica esteja aliada a um projeto político, que endossa uma moral social específica. E isso me indigna muito!!!

A boa notícia é que eles não conseguiram queimar todas as bruxas e hoje temos uma geração de mulheres que não aceitam passivamente esse controle. Um dos mais interessantes achados que encontrei por esse caminho foram mulheres que estavam praticando uma ginecologia dita natural e autogestiva. Essa prática busca incentivar mulheres a conhecerem seus corpos (tocá-los, senti-los, examiná-los) e tomarem a responsabilidade por sua saúde, sem necessariamente romper completamente com ginecologia convencional, e sim, utilizá-la em seu benefício.

O interessante também é que a ginecologia autogestiva surge com os grupos de consciência e reflexão feministas da década de 60, em que várias mulheres se reuniam nas casas umas das outras, ou em locais públicos como bares, cafés, bibliotecas para discutirem temas diversos relacionados ao contexto da época. Nestes encontros, as mulheres compartilhavam experiências pessoais, observavam o próprio corpo e o corpo das companheiras e questionavam o saber médico. E, a partir destas trocas foram percebendo que muito dos problemas vividos individualmente constituíam, na verdade, uma questão coletiva fruto da desigualdade social e de gênero.

Toda essa dinâmica me encantou profundamente, pois em uma sociedade, em que o ato de observar e sentir o próprio corpo é um gesto no qual não estamos autorizadas, essa metodologia se torna altamente revolucionária!

Assim, através do contato com os Sagrados Saberes Femininos e a ginecologia natural e autogestiva eu fui cada vez mais instigada a conhecer meu corpo. O primeiro passo foi criar um diário, em que todos os dias eu escrevesse sobre como havia sido meu dia, o que eu tinha vivido e sentido, como meu corpo estava. E isso foi só me levando a aprofundar o conhecimento que eu tinha sobre mim mesma. Pouco a pouco eu ia refletindo sobre o que estava acontecendo comigo, me tocando, sentindo meu ventre, minha vulva, olhando meu rosto, cabelo, unha, garganta, pé, joelhos. Cada informação é valiosa! Pode parecer bobo, mas depois de um tempo fazendo isso, e voltando nos seus escritos, você vai vendo como seu corpo foi respondendo a vários estímulos e como ele vai se transformando ao longo do ciclo. Como tem dores que são recorrentes e podem estar ligadas a contextos específicos, prazeres que você só sente em determinados momentos e não se ligava, você vai encontrando seus próprios padrões e vai descobrindo o que te faz bem e o que faz mal. Mesmo que eu não consiga escrever todos os dias, ou tudo o que eu gostaria, já é muito bom ter isso na rotina e estar ligada em si e no seu corpo. É maravilhoso!!!

O contato com essas mulheres me fez perceber o quão poderoso é o autoconhecimento e como eu sou capaz de saber o que se passa com meu corpo e solucionar o que me aflige! E, principalmente, me fez perceber que ao contrário do que nos fazem acreditar, nós podemos sim ser responsáveis pela nossa saúde, e não estamos sozinhas neste processo! Há toda uma gama de bruxas, curandeiras, parteiras, doulas, herboristas, psicólogas, antropólogas, médicas, naturólogas, que estão nessa com a gente! Sim, nós podemos minhxs amigxs! Cada informação compartilhada, cada descoberta feita, cada carinho trocado nos fortalece e nos vemos um pouco mais livres das amarras deste sistema que se sustenta do nosso poder, enquanto nos subjulga! Seguimos firmes! Sem nos submeter jamais! Até que todxs sejamos livres!!!

Janaina Morais

*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização

*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.

© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *