
Na semana passada vimos as mudanças que o nosso corpo vive ao longo do ciclo menstrual. Esse é um assunto que ainda vai render alguns textos, pois essas mudanças podem ser percebidas de várias formas, tanto fisiológicas quanto psicológicas e sensoriais.
Para entender como o nosso corpo se comporta em cada fase do ciclo é importante saber em qual fase estamos. Para descobrir isso temos que estar atentxs aos sinais que o nosso corpo transmite. Existem três fatores que sofrem mudanças durante o ciclo e que combinados nos darão a indicação certa do momento no qual estamos: o muco cervical, o cólo do útero e a temperatura basal do corpo.
Só com a verificação do muco cervical é possível perceber as fases do ciclo. Mas acho importante falar sobre a temperatura basal e o cólo do útero, pois os três fatores combinados podem ser utilizados como um eficiente método de percepção da fertilidade, conhecido como método sintotermal.
Muco cervical: é um fluido produzido pelo cólo do útero, que auxilia a passagem dos espermatozoides para dentro do útero e aumenta a taxa de sobrevivência deles. O muco muda de quantidade, cor e textura ao longo do ciclo, indicando se a ovulação está próxima, prestes a acontecer ou já aconteceu naquele ciclo.
Para verificar as mudanças do muco cervical você deve estar atentx, ao longo do dia, à sensação da vagina e da vulva, reparando na cor e textura do muco, ao se movimentar ou limpar no banheiro. Eu sempre verifico o muco quando vou ao banheiro. Às vezes o muco fica na calcinha ou, então, pelo uso do papel higiênico é possível detectar muita coisa. Saiu algum muco no papel? Qual era o aspecto dele? O papel passa macio e suave ou está um pouco mais seco?
No início do ciclo, quando estamos menstruando, é possível que saia algum muco cervical, mas não conseguimos perceber muito bem por conta do sangue. Depois que a menstruação termina já fica mais fácil perceber. Em um primeiro momento o muco tem um aspecto mais pastoso, grudento, seco, de cor opaca ou bege. Depois vai se transformando para um muco mais cremoso, úmido com cor menos opaca e mais esbranquiçada, até chegar a um muco super úmido, com aspecto aguado, cor transparente ou levemente esbranquiçado e elástico, lembrando clara de ovo.

Quanto mais úmido o fluido cervical, melhor pros espermatozoides se movimentarem, e mais perto da ovulação a pessoa está. O muco com o aspecto de clara de ovo, elástico e que não se rompe, geralmente, aparece dois a três dias antes da ovulação. E o que é importante verificar é o dia de pico. O dia de pico é o último dia com fluido cervical úmido, antes do fluido secar parcial ou totalmente – é o dia em que a ovulação acontece. No dia de pico não importa a quantidade de fluido, o que importa é que no dia seguinte o fluido fica mais seco, grudento ou seca completamente. Isso acontece porque o estrógeno é o hormônio responsável pela produção do muco cervical, quando ocorre a ovulação os níveis de estrógeno diminuem e a progesterona aumenta.
É importante esclarecer que o muco pode mudar depois de relações sexuais com penetração, então esse não é um bom momento para observá-lo. Outro ponto importante é lembrar que cada corpo se comporta de uma maneira, então é extremamente relevante que você ache o padrão do seu muco cervical, por isso é imprescindível anotar o que vai observando. Eu por exemplo, já tive ciclos em que depois de ter tido o muco tipo clara de ovo, a produção do muco não sessou, ou seja, eu não havia ovulado, ainda que o muco indicasse que eu estava próxima da ovulação. Neste mesmo ciclo, depois de alguns dias apareceu de novo o muco com aspecto de clara de ovo e aí sim depois de três dias o muco mudou de aspecto e começou a secar.
Outro detalhe sobre esse assunto: durante nossa vida fértil nós podemos ter ciclos anovulatórios. Nesses casos, nós não ovulamos, continuamos produzindo muco, a quantidade de estrógeno se mantém alta, até o corpo não sustentar mais, a taxa de estrógeno cair, e acontecer o desprendimento do endométrio – muito similar à menstruação. Esse ponto ilustra mais uma vez a importância de acompanhar as modificações do muco, para sabermos identificar o que está acontecendo com o nosso corpo.
Colo do útero: é a parte inferior do útero, que produz o fluido cervical. A posição, a textura e a abertura do colo do útero mudam ao longo do ciclo menstrual, indicando se a ovulação está próxima, prestes a acontecer, ou já aconteceu naquele ciclo.
Como verificar essas mudanças? Com as mãos lavadas e, preferencialmente, com as unhas cortadas, é só inserir um dedo dentro da vagina, lentamente, até alcançar o cólo do útero. Dependendo da pessoa e da fase do ciclo em que ela estiver, pode ser um pouco difícil de sentir o colo do útero, ele pode estar bem elevado. Mas em geral, dá pra sentir com facilidade. A sensação é de que o colo do útero é lisinho (ao contrário da vagina, que tem uma textura enrugada), com uma covinha no meio, onde é a abertura. Essa abertura pode ser um buraquinho arredondado (pra quem não teve filhos ou não teve nenhuma dilatação) ou uma fenda (pra quem já teve filhos e alguma dilatação).
A textura, a altura e a abertura do colo do útero variam ao longo do ciclo menstrual. Na maior parte do ciclo, o colo do útero está firme (como a ponta do nariz), baixo (a mulher não precisa inserir o dedo tão fundo na vagina pra alcançar), fechado (exceto durante a menstruação, quando está aberto pro sangue sair) e em posição inclinada. Nos dias próximos à ovulação, o colo do útero está macio (como os lábios), alto (a mulher tem que inserir o dedo mais fundo na vagina, e mesmo assim pode não conseguir alcançar), aberto e numa posição reta, direcionada (uma abertura suficiente pra caber a unha do dedo mindinho, mais ou menos).
Temperatura basal: é a temperatura do corpo em estado de repouso, medida com um termômetro adequado logo após acordar e antes de se levantar. A temperatura basal reflete o metabolismo do corpo, que é afetado pela ovulação. Então, a mudança no padrão da temperatura basal indica que a ovulação já aconteceu naquele ciclo. Por conta do aumento da progesterona no corpo após a ovulação, a temperatura do corpo também aumenta.
A ideia é medir a temperatura do corpo logo ao acordar, então é importante deixar o termômetro ao lado da cama, de forma que dê pra pegar sem se levantar ou mexer muito. O termômetro adequado pra medir a temperatura basal é chamado termômetro basal. Ele é um termômetro que faz a leitura com duas casas decimais, mas muitas pessoas estão usando o termômetro digital comum com sucesso também. A temperatura pode ser medida na boca (embaixo da língua) ou na vagina, o importante é medir sempre no mesmo lugar durante todo o ciclo menstrual.
Também é importante deixar o termômetro no lugar por tempo suficiente pra fazer a medida. Em geral, os termômetros basais digitais apitam após alguns segundos (assim como os termômetros digitais comuns), mas a medida feita com esse período de tempo só serve pra verificar se a pessoa está com febre ou não. É bom consultar o manual, mas em geral, pra medir a temperatura basal, recomenda-se deixar o termômetro por pelo menos 1 minuto.
O ideal é medir a temperatura após pelo menos três horas de sono/descanso, e não mudar o horário da medida em mais de uma hora. Se não for possível fazer isso, ou se acontecerem outras coisas que podem alterar a temperatura (doença, febre, beber na noite anterior), tudo bem, mas é importante anotar o horário da medida e o que aconteceu, e levar isso em consideração na hora da interpretação.
Eu confesso que não acho nada fácil medir diariamente a temperatura basal. Muitas vezes eu esqueço, não tenho horários fixos, movimento muito na cama e tudo isso acaba influenciado, mas sigo tentando me adaptar. Por esse e outros motivos ainda não utilizo o método sintotermal como método contraceptivo, porque requer disciplina e um autoconhecimento muito grande. Mas eu faço a observação do muco cervical diariamente e consigo perceber claramente em que momento do ciclo estou e quando minha próxima menstruação vai vir.
Para quem quer utilizar o método sintotermal como contraceptivo natural eu recomendo a leitura da sessão percepção da fertilidade do site O Lado Oculto da Lua. Lá é explicado de forma bem completa como aprender a utilizar o método. Também recomendo o grupo do facebook Percepção da Fertilidade e Contracepção Natural.
Janaina Morais
*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.
© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.
