O poder transformador do sangue menstrual

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O que eu estou segurando? Quais informações estou retendo? Quais sentimentos não estou expressando? Do que eu tenho medo?

Depois de compreender que eu posso estar guardando muitas informações no meu útero de coisas que me aconteceram, pensamentos, sensações e sentimentos que não coloquei para fora, comecei a rebobinar a fita da minha vida e ir aos poucos analisando acontecimentos importantes que puderam ter alguma relação com o estado atual das coisas.

No começo eu queria entender por que? Por que eu? Por que estou assim? Por que isso me aconteceu? E o retorno ao passado me ajudou a compreender muitas questões abertas que de alguma forma eu tinha escondido bem fundo pra não olhar de novo. Questões que eu não soube lidar direito por não estar preparada, desejos genuínos que não realizei, sentimentos profundos que não expressei. Consegui compreender muitas questões familiares e sociais que estavam diretamente ligadas à minha trajetória, como a relação com meus pais, avós, amigos. Tudo isso foi importante, mas não suficiente.

Realizar uma auto-análise é muito bom, ajuda a compreender muitas situações, mas o que você faz com todas essas informações depois? E as questões que você não conseguiu compreender? Chegou a um ponto em que eu estava presa ao passado, ansiosa pelo futuro e sem viver o presente. Isso me frustrava e me paralisava! Até que um médico/terapeuta/bruxo que eu me consultava me disse: “Você pensa demais! Você não é capaz de entender tudo o que acontece ao seu redor e nem precisa! Você precisa viver!”.

Fiquei encucada com aquilo e fui percebendo que de fato eu pensava demais, queria entender tudo, controlar as coisas (uma característica herdada da criação familiar, que é fruto desse pensamento social racional) e que isso não estava me levando a nada. Só me gerava ansiedade e me prejudicava.

Tudo bem! O passado já aconteceu e eu não consigo modifica-lo, o futuro ainda vai acontecer e eu não tenho controle algum sobre ele, o que existe é o agora. Preciso focar no agora, preciso estar bem agora, o que eu vou fazer então?

Preciso agir! Preciso transformar essa ansiedade, essa incompreensão, esses sentimentos em ação! Não dá mais para me sentir paralisada e impotente! Preciso assumir minhas limitações, minhas fraquezas, minhas emoções, deixar ir embora tudo aquilo que não me faz bem, pensamentos, comportamentos, relações. Preciso modificar minha vida!

Parei de tentar racionalizar tudo, comecei a aceitar que não sou capaz de compreender e controlar tudo e todos e passei a sentir mais as coisas. Sentir meu corpo, meu ventre, minha pele, as energias ao redor, o vento, o sol… Comecei a trabalhar esse lado mais sensorial, fenomenológico que a gente é tão ensinado a esquecer e que também é fonte de conhecimento profundo.

O contato mais sensível com meu corpo foi me mostrando caminhos que eu nunca tinha imaginado e eu fui percebendo que eu precisava criar e experimentar coisas com meu corpo.

Qual é a relação que eu tenho com esse corpo? Eu cuido da minha saúde? Eu me alimento bem? Eu me exercito? Eu gosto da minha aparência? Acho que sou bonita, atraente? Eu conheço bem meu corpo? Olho pra ele? Toco nele? Sei tudo o que me dá prazer? Conheço minha vulva, meus seios? Sei quando algo não vai bem? Que tipo de relação tenho com meu ventre, meu útero, meus ovários? E a minha menstruação? E o meu sangue?

Tudo isso foi me levando a perceber que eu não estava lidando bem com várias questões. Eu era indiferente ao meu ciclo menstrual, conhecia meu corpo, mas não profundamente, tinha uma vida sexual satisfatória, mas sentia que poderia explorar outros caminhos, gostava da minha aparência, mas hesitava em vestir certas coisas, modificar radicalmente o cabelo, amava dançar, cantar e atuar, mas me continha em público. Enfim, muitas e muitas coisas que eu queria e precisava ressignificar.

Queria me conhecer melhor e fui aos poucos trilhando esse caminho do autoconhecimento. Tantas descobertas importantes foram feitas, tantas partes novas do meu corpo exploradas, tantas sensações e emoções foram vividas e muitas experiências compartilhadas!

Uma das coisas mais importantes para mim foi ter contato com mulheres que estavam vivendo a menstruação de forma diferente, principalmente aquelas que utilizavam o próprio sangue menstrual para criar, desenhos, pinturas, fotografias. Aquilo pra mim foi assim… Surreal!!! Pensei: “Nossa! Preciso fazer algo desse tipo também!”.

Em abril de 2015 eu fiz a minha primeira foto do celular mesmo e postei no meu instagram @janaina.janis (a foto nem está mais lá, acho que denunciaram e apagaram, nem vi isso acontecer). E a partir dessa primeira foto, começou a pipocar de ideias para outras fotos. E a cada ciclo menstrual mais ideias surgiram e eu fui criando um elo muito lindo e forte com meu sangue. Percebi que ele poderia ser uma fonte de poder e beleza incomensurável.

A sociedade no geral encara o sangue menstrual como algo sujo e nojento e para muitas mulheres a menstruação é vista como um momento ruim, de muitas dores e incômodos. Esse significado ruim que a menstruação adquire socialmente só dificulta o envolvimento autêntico das mulheres com seu próprio corpo.

Por muito tempo eu não tive o ciclo menstrual regular. Às vezes demorava muito tempo para a menstruação vir, então quando ela vinha era um alívio tão grande e eu me sentia tão bem, apesar das cólicas, que ao contrário de muitas mulheres eu comemorava a chegada da minha menstruação (claro que não foi sempre assim, isso só aconteceu depois que eu decidi parar de tomar a pílula). Quando eu comecei a criar arte menstrual então, a menstruação era o evento mais esperado.

Aos poucos fui colocando para fora todo o desejo de criação e expressão mais profundos que eu tinha. O sangue se tornou o meu maior aliado, e meu corpo se tornou fonte de dedicação, inspiração e amor. Descobri que eu era capaz de ressignificar minhas experiências. Tudo aquilo que em um primeiro momento não era bom para mim eu poderia transformar em algo belo e prazeroso.

Percebi que eu estava descobrindo tantas coisas importantes que eu precisava compartilhar com outros corpos menstruantes. Eu estava conseguindo curar a minha relação com meu próprio corpo e queria mostrar para outras pessoas que isso era possível, que cada umx à sua maneira poderia encontrar o seu caminho e aquilo que lhe faz sentir bem. E assim surgiu esse projeto.

É tão maravilhoso expor as fotos na rua e ouvir: “Nossa! Eu nunca tinha pensado nisso antes!”; “Que projeto maravilhoso!”. Tão bom poder falar abertamente sobre menstruação com qualquer pessoa, seja homem, mulher, idoso ou criança, sem aquela carga dramática de estar falando sobre O Segredo.

E quando eu encontro mais e mais mulheres que também usam o sangue para criar? Nossa! Cada trabalho incrível que meus olhos enchem de emoção! De verdade! Esse projeto só tem me trazido alegria e prazer e eu só tenho a agradecer cada troca, cada pessoa que se interessou e me apoiou!

Não é fácil romper padrões ou transformar aquilo que é visto como ruim em algo bom. Não mesmo! Requer assumir nossa vulnerabilidade e encarar nossas fraquezas. Mas uma coisa é certa: tem algo de muito poderoso em submergir nas profundezas dos nossos medos, encará-los de frente e conseguir emergir transformada, mais forte do que quando mergulhou. Seguimos firmes, tentando transformar nossas fraquezas naquilo que nos fortalece!

Janaina Morais

*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.

© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.

1 thought on “O poder transformador do sangue menstrual

  1. todasessashipoteses says:

    Não faz muito tempo eu reclamava da minha menstruação e tinha vergonha, mas de diversas formas o Universo me fazia perceber que eu precisava olhar com amor para todas as partes de mim. Essa foi a primeira vez que li sobre arte com nosso sangue e acho que é algo muito maravilhoso!

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