
Conhecer nossos corpos e nossos ciclos é uma ferramenta muito importante para retomarmos o poder que nos tem sido negado. Tocar nossos corpos, sentir nossa pele, conhecer cada curva, cada pinta, cada pelo, cada nuância! Perceber as mudanças que passamos diariamente e observar as sensações, sentimentos e pensamentos que temos! Tudo isso nos ajuda a nos aproximar de nós mesmxs!
Para conseguir compreender as mudanças pelas quais o meu corpo estava passando, depois que parei de tomar a pílula, eu precisei compreender como funciona o meu ciclo menstrual, sem os hormônios sintéticos. Assim, para interpretar as informações que eu anotava no meu diário eu precisei pesquisar sobre o que se passava no meu corpo durante o ciclo.
A informação mais difundida sobre a duração de um ciclo menstrual saudável é o padrão de 28 dias. Mas tenho encontrado outras informações que abrem um pouco mais esse padrão e estipulam que um ciclo saudável varia de 21 a 35 dias. Como eu não me enquadro nem em um, nem em outro (meu ciclo é de mais ou menos 40 dias), eu não vou trabalhar com padrão, porque não tem servido pra muito nessa vida! O que eu mais tenho visto são corpos menstruantes com ciclos muito variáveis.
Vamos entender um pouco a dinâmica do ciclo! Independente da quantidade de dias o ciclo menstrual se divide em duas grandes fases: a pré-ovulatória (fase folicular) e a pós-ovulatória (fase lútea). A fase pré-ovulatória vai desde a menstruação até a ovulação. A fase pós-ovulatória vai desde a ovulação até a véspera da próxima menstruação.
A pré-ovulatória tem uma quantidade de dias muito variável – varia de corpo para corpo e também em uma mesma pessoa de um ciclo para outro. Já a fase pós-ovulatória tem duração pouco variável. O número de dias varia um pouco de corpo para corpo, podendo ser de 10 a 16 dias e para uma mesma pessoa pode diferenciar um ou dois dias de um ciclo para outro. Com essa explicação já podemos quebrar um mito: a menstruação não atrasa! O que atrasa é a ovulação!
A menstruação é o sangramento que ocorre cerca de 14 dias após a ovulação do ciclo anterior, quando não há a fecundação do óvulo. O sangramento é provocado por uma queda nos níveis hormonais do corpo, causando o desprendimento do endométrio, que se desenvolveu durante o ciclo. A duração da menstruação pode ser de três a sete dias e a intensidade do sangramento varia de leve a forte (5ml a 80ml, somando o volume de sangue de todos os dias da menstruação).
Muitas mudanças ocorrem nos corpos menstruantes, motivadas pelos diferentes hormônios que atuam durante o ciclo menstrual. Questões como alimentação, stress, ansiedade, também podem influenciar no decorrer do ciclo. Vamos tentar entender as mudanças centrais que ocorrem em cada fase do ciclo.
Menstrual: O início de um ciclo é marcado, então, pelo primeiro dia da menstruação. Essa fase do ciclo pode ser acompanhada de cólicas e energia um pouco mais baixa. É uma fase em que podemos estar mais reflexivas, mais introspectivas e sem tanta vontade de se relacionar com o entorno (claro que isso pode variar muito de acordo com o corpo de cada umx). Com o passar dos dias os níveis hormonais vão aumentando levemente e esses sintomas vão melhorando. No início do ciclo, a hipófise ou pituitária (uma poderosa glândula do cérebro), através do hormônio folículo estimulante (FSH), começa a estimular os ovários a fazerem os folículos crescerem novamente para este novo ciclo que se inicia.
Pré-ovulatória: Com os folículos crescendo e se desenvolvendo, eles começam a produzir estrógeno, que segue se elevando no corpo. Com os níveis de estrógeno subindo, a energia e o animo também vão aumentando. O estrógeno manda a mensagem para o útero começar a produzir fluido cervical e preparar o endométrio. O fluido cervical é produzido pelo colo do útero, para garantir o fácil acesso dos espermatozoides ao útero, como também a sobrevivência deles por mais tempo no corpo da mulher (eles podem sobreviver até cinco dias). O fluido cervical vai variando de grosso, espesso e esbranquiçado a mais elástico, aquoso e transparente, indicando o período mais fértil. Em ciclos longos pode demorar mais alguns dias para o útero começar a trabalhar, nesse meio tempo a produção do muco cervical pode ser menor ou inexistente. E, em ciclos mais curtos pode acontecer de não ter dias secos, sem produção de fluido cervical, e da menstruação já passar direto pra próxima etapa.
Ovulatória: durante a ovulação se alcança o nível mais alto de estrógeno e testosterona, o que pode elevar o desejo sexual e favorecer orgasmos mais fortes. Com o nível de estrógeno no máximo a hipófise, através do hormônio luteinizante (LH) envia a mensagem para o folículo liberar o óvulo. Um dia depois da ovulação os níveis de estrógeno e testosterona caem e começa a elevar os níveis de progesterona e com isso a temperatura basal do corpo. Isso acontece porque o folículo agora vazio (conhecido por corpo lúteo) começa a produzir progesterona, que vai impedir uma futura ovulação no mesmo ciclo e estimular o endométrio a crescer de forma glandular, ficando rico em vasos sanguíneos. Nessa fase o fluido cervical vai ficando cada vez mais seco ou para de ser produzido de uma vez. Podemos começar a nos sentir com menos energia, mais irritadas e com menos vontade de interagir, devido aos efeitos da progesterona, mas claro, mais uma vez, não é via de regra – cada corpo experimenta as mudanças do ciclo de forma diferente.
Pré-menstrual: Nessa fase os estrógenos seguem muito baixos e a progesterona alta. Podemos nos sentir mais sensíveis, com seios e ventres inchados e o desejo sexual pode aumentar, mas não por conta dos níveis hormonais, e sim porque todas as terminações nervosas da região pélvica estão estimuladas, enquanto o corpo se prepara para menstruar. Se não houve fecundação, o corpo lúteo se desintegra cerca de 14 dias após a ovulação. Com isso, os níveis de estrógeno e progesterona caem. E assim, a temperatura basal também cai e há o desprendimento do endométrio, resultando na menstruação e no início do novo ciclo.
Segue uma figura que ilustra o que acabamos de ver. Mas não vamos considerar a contagem de dias dessa imagem como padrão, ok?

Depois de entender como o ciclo menstrual funciona e aliar esse conhecimento com tudo o que eu havia anotado no meu diário (sentimentos, sensações, qualidade do sono, apetite, sociabilidade, ansiedade, libido, sonhos, irritabilidade, mudanças físicas – seios, ventre, pele, muco, cabelo, unhas, vulva) eu pude perceber que certos acontecimentos estavam muito ligados à fase do ciclo na qual eu me encontrava e ao momento no qual estava vivendo.
Pude perceber que algumas sensações se repetiam ciclo após outro, ou, então, como cada ciclo era uma nova história. Aos poucos fui delineando qual fase era melhor para mim e qual fase era mais difícil. Tudo isso me ajudou a perceber o que o meu corpo estava pedindo em cada momento e o qual era a melhor forma de agir para que eu me sentisse bem. Muitas das vezes em que acreditei ter perdido o juízo eram na verdade momentos em que eu mais precisava me expressar e liberar o que eu estava sentindo. Tudo o que a gente pensa, faz, sente, diz fica marcado no corpo. Dores, tristezas, ansiedades, são formas do nosso corpo nos dizer que algo não vai bem.
Manter esse diário e buscar compreender o que se passava com o meu corpo me ajudou a conhecer a mim mesma e a lidar melhor com as adversidades que eu estava vivendo. É algo muito lindo isso de se conhecer e percebo que é infinito! Sempre haverá novas sensações, tormentas e amores por descobrir!
Janaina Morais
*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.
© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.
Referências:

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