Não desistam dos seus ovários!

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Você sabe o que é Síndrome dos Ovários Policísticos (S.O.P)? É uma síndrome que interfere no processo de ovulação do corpo em virtude de um desequilíbrio hormonal. Dentre os sintomas estão aumento do volume ovariano, ausência ou irregularidade da menstruação, ausência de ovulação, aumento de peso, aparecimento de acne, hirsutismo (pelos em excesso).

Quantas pessoas você conhece que possui SOP? A informação que comumente circula é de que 10% dos corpos menstruantes em vida fértil possui SOP, mas já encontrei variações nessa porcentagem entre 7% a 20%. A verdade é que a falta de informação e a veiculação de informações equivocadas é o que mais acontece nesses casos clínicos.

Eu fui diagnosticada com tal síndrome quando tinha 15 anos, com base somente em um ultrassom e no fato de que meu ciclo era irregular. Há 12 anos, o diagnóstico de SOP sem a realização de qualquer exame de sangue era bastante comum, podendo levar a falsos diagnósticos. Dia desses encontrei a tal ultrassom que fiz naquela época e meus ovários estavam lindinhos. O que pensar de tudo isso?

O fato é que depois de 10 anos tomando a pílula por conta desse diagnóstico eu resolvi parar com o medicamento. Mas antes fui à ginecologista que eu era paciente na época e perguntei a ela o motivo da SOP. Ela falou que a causa ainda é incerta, mas que o problema estava nos meus ovários, que não funcionavam bem. Perguntei se os médicos estavam pesquisando sobre a síndrome e ela disse que sim, mas que as pesquisas eram inconclusivas. Perguntei, por fim, se faria algum mal eu parar com a pílula, ela falou que não, mas que muito provavelmente os sintomas voltariam. Saí, mais uma vez, insatisfeita de uma consulta ginecológica, mas decidida a parar com o medicamento e a fazer minhas próprias pesquisas sobre o assunto.

As informações mais interessantes que descobri sobre a SOP vieram de meios pouco ortodoxos. Através de médicas naturopatas, terapeutas, herboristas e mulheres com SOP descobri várias formas de compreender a síndrome, bem diferente da forma com a qual ela tem sido tratada pela medicina alopática. A abordagem mais interessante que encontrei veio de uma médica naturopata chamada Lara Briden.

Para começar ela toca exatamente no problema do diagnóstico de SOP ser dado muito frequentemente e com pouco cuidado. Fala sobre como mulheres são enganadas pela afirmativa de que algo anormal foi visto no ultrassom.

Durante a vida fértil, o corpo menstruante vai passar por ciclos anovulatórios e cistos podem ser detectados no ultrassom. Cistos ovarianos são os sacos ou folículos que contém os óvulos. A cada mês, novos folículos crescem e são reabsorvidos. A cada mês, você tem um conjunto completamente diferente de folículos. Essa é a razão de porque, a cada mês, seus ovários parecerem diferentes no ultrassom.

O ovário normal deveria ter – na média – 6 a 12 folículos de tamanhos variados. O ovário policístico tem – por definição – mais de 12 pequenos folículos subdesenvolvidos. Por que os folículos são pequenos e subdesenvolvidos ? Porque a ovulação não ocorreu naquele mês. Às vezes a ovulação simplesmente não acontece, e essa é a razão pela qual os ovários de mulheres normais frequentemente são policísticos.

Assim, só o ultrassom não basta para confirmar o diagnóstico de SOP. Os obstáculos à ovulação incluem insulina, açúcar, inflamação, toxinas ambientais, glúten, hormônio luteinizante, tireoide, prolactina, stress, dentre outros. “O diagnóstico real requer um histórico de saúde detalhado e exames de sangue. Às vezes é simples, e às vezes é complicado. Mas o diagnóstico real é algo que a maioria dos médicos não querem perseguir. É muito mais fácil pedir um ultrassom e jogar um diagnóstico de SOP na sua cara” (Lara Briden).

Dessa forma, ela explica como a SOP não é uma condição ovariana, são muitas condições hormonais e metabólicas que afetam os ovários. “Quando confrontados com inflamação, excesso de sinalização de insulina e outras questões, os ovários de algumas mulheres respondem desligando a ovulação e produzindo testosterona ao invés. Sim, provavelmente há um fator genético para essa tendência. Outras mulheres podem encarar a mesma inflamação e resistência à insulina, e ainda assim seus ovários resistem. Dito isso, não são os ovários que precisam de tratamento. O que precisa de tratamento é a condição hormonal ou metabólica subjacente” (Lara Briden).

Ela classifica quatro tipos de SOPs:

  1. Resistência a insulina é o tipo mais comum. A insulina alta impede a ovulação e estimula os ovários a produzirem testosterona.
  2. SOP induzida pelo uso de pílula. Apesar de alguns especialistas negarem a existência deste tipo de SOP, Lara Briden afirma ser algo muito real e o segundo tipo mais comum que ela tem encontrado em sua clínica. Para a maioria das mulheres tem sido um efeito temporário, mas para algumas a supressão da ovulação pode persistir por meses e até anos.
  3. SOP inflamatória. A inflamação é uma ativação imunológica crônica que pode ser resultado de stress, toxinas ambientais, permeabilidade intestinal e comidas inflamatórias como glúten. Inflamação é um problema para a SOP porque impede a ovulação, rompe hormônios receptores e estimula a produção de hormônios andrógenos.
  4. Causas escondidas de SOP. É o tipo de SOP que não se enquadra em nenhum dos três casos anteriores. No geral é algo simples que está bloqueando a ovulação, como doença de tireóide, deficiência de zinco e iodo, dentre outros.

Lara Briden afirma como é importante não aceitar facilmente um diagnóstico de SOP e ir à fundo na investigação do que poderia estar bloqueando a ovulação, pois as causas são as mais diversas possíveis. Com isso, compreendi que a síndrome pode se dar por diversos fatores e que em cada corpo pode se manifestar de maneira diferente. Dessa forma, não é possível haver um tratamento padrão, como a medicina alopática faz e receita pílula para todas as pessoas, cada corpo precisa descobrir o tratamento que melhor atende ao seu caso.

A pílula tem sido indicada como a salvação para todas as questões femininas. Quer prevenir gravidez? Pílula. Tem ovário policístico? Pílula! Endometriose? Pílula! Acne? Pílula. É preciso problematizar essas recomendações e os diagnósticos rasteiros. A indústria farmacêutica exerce muita influência na prática médica e tem grande interesse na dependência da população em remédios diários. Não dá para aceitarmos de forma passiva este tipo de recomendação sem exigir explicações mais detalhadas e coerentes. É nossa saúde que está em risco! Por isso é tão importante tomarmos as rédeas do nosso corpo e da nossa saúde, nos informarmos sobre o que está acontecendo, o que tem sido pesquisado, quais alternativas existem, para podermos estar conscientes do que estamos tomando e que tratamentos estamos escolhendo.

Não desistam dos seus corpos! Há um mundo de possibilidades para além das pílulas! É preciso resistir, questionar e não desistir jamais até que nossos ovários sejam livres!

Janaina Morais

*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.

© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.

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