
A anatomia do corpo humano sempre me despertou curiosidade. Nas aulas de biologia me encantava compreender o funcionamento de cada órgão. Parecia que se eu entendesse como o corpo humano funciona eu entenderia mais a mim mesma e, de alguma forma, era isso o que acontecia. Mas o que me instigava ainda mais era a leitura cultural que as sociedades faziam sobre aquele dado biológico. Ah! Aí sim, isso me deixa deslumbrada!
Com o ciclo menstrual não é diferente. Cada sociedade possui uma interpretação sobre seu significado e, em uma mesma sociedade podemos encontrar diversos referenciais. Nessa minha busca encontrei algumas interpretações culturais sobre as transformações que vivemos durante o ciclo menstrual – acho interessante falar sobre elas, pois podem servir de auxílio nessa jornada.
A primeira leitura que encontrei foi da escritora Miranda Gray, que é referência para muitas mulheres facilitadoras de círculos de mulheres e praticantes dos chamados Sagrados Saberes Femininos. A autora indica que existem quatro arquétipos femininos relacionados às quatro fases do ciclo menstrual, que estão intimamente ligados às fases lunares e as estações do ano. Vou fazer um breve resumo dos arquétipos que a autora apresenta em seu livro Red Moon.
Pré-ovulatória: Arquétipo: virgem ou donzela. Fase lunar: crescente. Estação do ano: primavera. Energia alta, dinâmica, confiante, firme, ambiciosa, sociável, capaz de enfrentar desafios, centrada em si mesma, com grande poder de concentração.
Ovulatória: Arquétipo: mãe. Fase lunar: cheia. Estação do ano: verão. Expressão interna e externa do amor. Protetora, responsável, forte, centrada em cuidar dos outros. Sexualidade e criatividade exaltadas.
Pré-menstrual: Arquétipo: feiticeira. Fase lunar: minguante. Estação do ano: outono. Interiorização, magnetismo, atração, aumento da sexualidade, consciência e intuição. Pode ser uma fase muito criativa ou muito destruidora, podendo apresentar sintomas de tensão, irritabilidade, cansaço, depressão. Momento de revisão da própria vida e do que deve eliminar ou transformar.
Menstrual: Arquétipo: bruxa. Fase lunar: nova. Estação do ano: inverno. Representa a sabedoria e a estabilidade. Fase de introspecção, de dormir, sonhar e diminuir o ritmo da vida. Pode ter mais vontade de ficar sozinha e se isolar.
Essa é uma leitura sócio-cultural sobre as transformações que passamos em cada fase do ciclo, por conta das variações hormonais. Eu acho essa leitura interessante, porque ela apresenta um caráter místico e espiritual, entendendo o ciclo menstrual como um ciclo de vida-morte-vida, como todo ciclo da natureza, mas eu tenho críticas em relação a esse modelo porque acho essencialista, como se todas as mulheres seguissem esse padrão de comportamento, o que não é por aí.
A primeira pedagoga menstrual e também membro da Society for Menstrual Cycle Research, Erika Irustra, leva os arquétipos de Miranda Gray em consideração, mas vai muito além para explicar as mudanças do ciclo. Em primeiro lugar, ela entende que não somos seres lineares, somos cíclicxs e por isso não somos uma única pessoa e sim um universo inteiro de possibilidades.
Erika fala que Jung foi o pai dos arquétipos e para ele os arquétipos representam um conteúdo inconsciente que ao se tornar consciente e percebido se transforma, de acordo com cada consciência individual. Assim, ela explica que para sermos todas as pessoas que somos, tomamos certos referenciais, certos “trajes”. A experiência de ler o ciclo menstrual a partir da representação de distintos personagens nos incita a fazer consciente o inconsciente, que se tece entre nossas mudanças químicas, hormonais. Ocorre que para tomarmos referenciais e padrões, observamos arquétipos criados por outras mulheres, como é o caso dos arquétipos celtas que expõe Miranda Gray.
O que é fundamental, segundo Erika, é entender que as ficções que outras mulheres desenham sobre a nossa experiência biopsicossocial, são sugestões, línguas novas para lermos e nos orientarmos, passos prévios para a construção de uma linguagem própria, genuína, que parta de nossa própria experiência e nosso próprio corpo. Cada pessoa lê seu corpo de distintas maneiras, a chave está em cada um aprender a ler-se e aprender que não existe a donzela, a mãe, a feiticeira e a bruxa, porque são sugestões de leitura, não a leitura em si. “Não podemos confundir o dedo que aponta a lua, com a lua em si mesma”.
A química e suas reações estão intrinsecamente ligadas ao entorno, a como lemos este e a como nos deixamos ler por este. Pode ser que uma pessoa não se comporte como determinado arquétipo sugere, afinal, cada corpo é um e cada história é uma, por isso é importante praticar a alfabetização do corpo que somos. Buscar conhecer quais são suas quatro pessoas é o começo, e é muito importante ter referências, para nos orientar e não para nos definir. Depois vamos percebendo que as mudanças de fases não são fixas e lineares, que podemos ser mais de quatro pessoas ou, então, apenas duas. E não apenas mulheres, podemos ser homens, animais, fantasmas, seres híbridos, não há limites para desvendarmos este grande universo que somos.
Por fim, Erika apresenta algumas das outras mulheres (ou não) que podemos ser, baseado na observação de seu próprio corpo:
Entre a menstrual e a pré-ovulatória: pode aparecer uma garota (ou não) vulnerável, com vontade de abraçar o mundo, mas sem forças nem corpo para fazê-lo. Um ser que se deslumbra com o mundo depois de sair das profundezas de uma caverna. Às vezes oscila entre alguém muito jovem e alguém mais velho. É o caminho que transitam os mortos não nascidos à vida: cansaço, expectativa, esperança e esgotamento.
Entre a pré-ovulatória e a ovulatória: assume a cabeça de um duende, um ser sexuado e indeterminado, que não se enquadra em nenhum molde e que qualquer molde o entedia, pois é mais livre e amplo do que o apreendido – uma mescla de gêneros.
Entre ovulatória e pré-menstrual: há um vazio, algo indeterminado. Uma mudança que as vezes é brusca e que separa um mundo de outro e que, em certas ocasiões, é um abismo consistente, um eco. Uma mulher que perde sua condição humana para transformar-se. O silêncio entre palavras que dá sentido a elas.
Entre pré-menstrual e menstrual: a ferida se abre. Poderia ser uma mulher ou a decadência dela, levada com tanta força, que como uma folha seca se rompe debaixo dos nossos pés. As vezes é uma velha, outras vezes é um fantasma. Atravessa as paredes do quarto e não poucas vezes se esquece de que também é corpo e acaba se machucando.
Em resumo, estas são as quatro fases que Erika apresenta, sempre enfatizando que tudo depende do entorno e da poética do momento. Eu acho muito interessante este tipo de leitura e tem me auxiliado muito a entender quem sou e a compreender o fato de que eu não sou uma única pessoa.
A minha vida toda me cobraram sobre que pessoa eu era e o que eu queria fazer. “Ah! Você devia ser tal pessoa, desenvolver tal atividade, você está muito perdida, precisa ter foco”. Isso sempre me incomodou em uma dimensão muito profunda e muitas vezes eu deixei de fazer coisas que queria fazer por conta dessas cobranças. Por que eu vou querer ser uma pessoa só se eu posso ser várias? Sério! Se você pudesse escolher ser quem você quisesse ser, você escolheria ser uma pessoa só? Eu não! Quero ser um grande híbrido, uma mistura louca de mulher, homem, bruxa, escorpião, deusa, árvore, nuvem. Tudo junto, misturado nesse grande universo que sou/estou. Entender isso me ajuda muito a compreender as mudanças que vivo e, principalmente, a aceitar quem sou: um ser em fluxo contínuo.
Janaina Morais
*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.
© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.
