
Confesso que não sei nem por onde começar a escrever sobre a minha relação com a pílula anticoncepcional. Acho que esse é um dos assuntos mais caros para mim, porque essa microcápsula esteve presente na minha vida durante 10 anos. Em um cálculo estimado foram 2730 pílulas ingeridas nestes anos todos. Eu estava tão condicionada a toma-las que eu nem precisava de lembrete, de despertador ou coisa similar, bastava colocar um gole de café na boca que o meu cérebro já alertava: PÍLULA! Raríssimas foram as vezes que me esqueci de tomar. E por quê? Por que usar pílulas?
No meu caso, quando eu tinha 15 para 16 anos, a minha menstruação não era regular, algumas vezes eu ficava quatro meses sem menstruar e isso me gerava uma irritação e instabilidade enormes. Como eu ia ao ginecologista desde os 12 anos (quando alcancei a menarca), a cada ida a um ginecologista diferente (porque não gostava de nenhum) eu era cobrada em relação a uma regularidade do meu ciclo: “Depois de três anos o ciclo de uma mulher se regula, se o seu ainda não regulou algo está errado!”. Assim, depois de fazer um ultrassom, fui diagnosticada com a síndrome dos ovários policísticos e o único “tratamento” possível era o uso da pílula.
Naquela época eu era uma adolescente que sabia pouco ou quase nada da vida e a única coisa que eu pensava era que eu estava iniciando a minha vida sexual e precisava prevenir a gravidez, pois MORRIA DE MEDO DE FICAR GRÁVIDA!!! O medo era tão grande que naquela época eu tinha achado era bom esse diagnóstico e o uso da pílula, porque não só ia regular minha menstruação, como eu estaria protegida! Maravilha, né?
Passei esses anos todos acreditando nesse diagnóstico e que não havia alternativa para o meu “problema” que não fosse tomar a pílula. Eu nem sequer questionava se ela havia me trazido efeitos diversos, eu ainda não conhecia bem meu corpo e estava tomando a medicação sem levantar nenhuma problematização.
Até que final de 2014, eu comecei a problematizar diversas questões da minha vida e, principalmente, a relação que eu estava desenvolvendo com o meu corpo e a minha saúde. Senti que precisava parar, de qualquer maneira, com a pílula. Então em janeiro de 2015 eu parei com o uso e comecei a pesquisar sobre a pílula e a síndrome dos ovários policísticos (este assunto eu vou abordar futuramente).
O surgimento da pílula, na década de 60, é um acontecimento de grande importância para as mulheres, pois ela significava uma maior liberdade sexual e a possibilidade de escolher quando e, se, queremos ficar grávidas. De fato, este é um ponto altamente importante de se levar em consideração ao falar da pílula, mas há outras questões igualmente relevantes que ficaram à sombra.
Depois de mais de 50 anos do surgimento da pílula, ainda há uma grande desinformação do que realmente significa usar esse medicamento. Uma das coisas que eu descobri neste processo e que ginecologista nenhum me informou é que a pílula funciona como um anovulatório, ou seja, durante os 10 anos em que tomei a pílula eu não ovulava, é como se meu corpo, através de cada pílula diária, lesse a mensagem de que eu estava grávida, e o sangue que eu liberava no momento de interrupção do medicamento era apenas um sangue mimético, não o sangue da menstruação, pois, afinal, eu não estava ovulando.
Além disso, ela é um hormônio sintético, que vai alterar o funcionamento do seu corpo de alguma forma, visando o famigerado CONTROLE! Ao ter esse controle como norte, nós acabamos encontrando algumas pedras pelo caminho. Muitas mulheres experimentam reações como dores de cabeça fortes, enjôos, mudanças de humor, aumento de peso, retenção de líquido, queda da libido, além de outras consequências piores como a proliferação de cistos e nódulos pelo corpo, e até casos mais graves de AVC e trombose. E, novamente, nada disso é alertado à paciente.
No meu caso, agora que parei com a medicação, pude perceber alguns efeitos que ela me trouxe e que antes eu não percebia claramente. A alteração mais importante que aconteceu comigo, opera em um nível físico-psicológico profundo, pois pude perceber como a pílula foi capaz de mascarar o meu corpo e a mim mesma.
Tomando o medicamento, eu não experimentava qualquer mudança relacionada ao ciclo menstrual, não sentia meu corpo se alterar, não sentia dores, não presenciava mudanças de humor, até parecia que eu era uma pessoa linear, constante. Para algumas pessoas isso pode até parecer um efeito positivo. Mas pra mim não! Eu percebi que a pílula mascarava o meu poder feminino, a minha capacidade cíclica de mutação, as minhas iras, desejos e sensações mais profundas. Era como se eu estivesse amortecida, apaziguada, como se a cada pílula que eu tomasse eu jogasse um pouco de areia no fogo transformador que arde dentro de mim. Eu estava anulando a mim mesma. É uma sensação que vai além do racional, é muito sensorial!
Não vou dizer que foi fácil parar com a pílula, pois não foi. Até hoje meu corpo ainda está se adaptando aos seus próprios níveis hormonais. Mas uma coisa é certa: eu não volto a tomar a pílula ou qualquer medicamento hormonal nunca mais nessa vida! Ao parar com a pílula, eu pude ter contato com o meu corpo e com meu ciclo, da maneira como eles são: loucos, irregulares, instáveis, mutáveis, inconstantes, transformadores. E todas essas sensações me definem! Essa sou eu! Esse é meu corpo! Eu não sou um alguém linear e constante e nem quero ser! Não quero ter CONTROLE sobre meu corpo, sobre meu ciclo. Quero que meu corpo se manifeste da maneira que ele é/está, sem padrões! Sem a cobrança de um ciclo regular ou de um comportamento adequado. Quero ele livre, lindo e louco!
Janaina Morais
*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.
*Esse post faz parte de uma série de textos criados para o projeto Meu Corpo, Meu Sangue, desenvolvido em 2016 e reflete as ideias e conhecimentos da autora naquele contexto. Se fosse escrito atualmente passaria por um processo de edição e atualização.
© A Foto deste post é de autoria de Janaina Morais.
